terça-feira, 15 de setembro de 2009

Futebol de A a Z

Existe um ditado popular que diz: “só se colhe o que se planta”. Outro também bastante conhecido afirma que: “aqui se faz, aqui se paga”. É verdade que são “teorias” populares; concepções gerais, mais ou menos racionais, acerca dos desdobramentos do cotidiano, sejam eles individuais ou coletivos. Contudo, apesar de não estarem calcadas em observações científicas, a interpretação da semântica dessas frases se valida na observação empírica do dia-a-dia. Fazendo uma analogia entre essas quase verdades e a atual situação do Santa Cruz Futebol Clube de Pernambuco, percebe-se que as idéias-chave que fundamentam a filosofia de rua merecem certo reconhecimento.
Pois quem conhece a história de perto, ou melhor, de dentro das instalações do tricolor do Arruda sabe muito bem que o momento vergonhoso em que vive o clube (aliás, o crédulo torcedor é quem realmente sofre e passa ridículo) é o resultado das gestões incompetentes, quando não inoperantes, dos vários vampiros que dirigiram e ainda dirigem esse Poseidon (grande e de ponta à cabeça) chamado de cobra coral. Tenho um irmão que foi técnico da escolinha de futebol do Santa Cruz e acompanhou um pequeno trecho dessa história triste e revoltante para quem gosta do esporte e do Santinha. Hoje mais santinha do que nunca. Naquela época, começo da década de 90 ele pode ver as dificuldades que os garotos que sonhavam em ser jogadores de futebol tinham. Não recebiam nenhum apoio dos dirigentes. Nem passagem de ônibus para irem aos treinos, nem chuteira, meões, short, tampouco, alimentação. O campinho era de areia e num terreno perto do canal, lá do outro lado. Esse exemplo é só – com permissão do clichê – a ponta do iceberg das mazelas do clube como um todo. Até porque os problemas não se resumem ao futebol. Toda a estrutura (administrativa, física, técnica, tática, filosófica, moral, etc.) precisa passar por reformas profundas. O descaso com as categorias de base em todas as modalidades se reflete no nível profissional. A falta de vergonha na cara e a ganância dos falsos messias que toda vez prometem mudar o cenário caótico do Santa e nunca cumprem se estampa com o vexame da terceira divisão. É claro que outros times ditos tradicionais já sentiram isso na pele. Mas no caso do tricolor pernambucano tratou-se de uma crônica anunciada. Se os chupa-sangues investissem os recursos do clube com equanimidade e respeito, e não ficassem ouriçados para lucrarem (o mais rápido possível, ainda que bem menos do que se poderia) com negócios pífios e duvidosos, vendendo os atletas que despontam, talvez, não estivéssemos desse jeito. Foi assim em 2006 quando o clube subiu para a 1ª Divisão do Brasileirão e logo os cartolas decidiram desmontar o grupo. Então, contrataram jogadores de terceira categoria – sem querer crucificar nenhum deles – e o resultado da equação está aí pra todo mundo ver, reclamar, lamentar, chorar... Há os que vão rir...
A ridiculeza já se mostrou naquela patética volta olímpica em comemoração ao título que não veio em virtude da derrota do Náutico para o Grêmio, que se sagrou campeão da série B no ano passado. E agora atinge o apogeu na apelação do presidente Edson Nogueira. Que afirma ter documentos que comprovariam a manipulação de resultados em partidas e que o suposto dossiê evitaria a queda para a série C. “Esse dossiê vai estremecer o Brasil”, disse o dirigente. Para mim, o que vai continuar estremecendo são as arquibancadas do Arrudão. Porque acredito que o torcedor tricolor, mesmo desapontado, não vai abandonar o clube por causa dos abutres fisiologistas que insistem em habitar as dependências administrativas do Santa Cruz para usurparem o dinheiro, a alegria alheia e construir uma trajetória de fracassos. A propósito: existe série Z do campeonato brasileiro?

Nenhum comentário:

Postar um comentário