Há bastante tempo, certamente mais de 25 anos, as válvulas dos televisores “esfriaram-se”. Nada mais era do que o reflexo do aquecimento veloz dos avanços tecnológicos. Naquela época, quando se ligava o televisor, havia uma espera enorme para a obtenção da imagem. E o nível de qualidade encontrava-se limitadíssimo quando comparado aos aparelhos fabricados atualmente. Não obstante, era o que tínhamos e que deixara muita gente de boca aberta. Com a invenção dos transistores as velhas válvulas foram aposentadas. Os pequenos sucessores ganharam status, aprimoramento tecnológico, e “transformaram-se” em chips.
Todavia, o que ontem era novo hoje já não o é. Agora se ouve falar em televisor de plasma, palm-tops, MP4, entre outros que são demonstrações visíveis desse avanço. Adentramos a era digital. Chegamos à era do Informacionalismo, como defende tão sabiamente Manuel Castells.
Sem querer me aprofundar no mérito técnico (até por falta de propriedade minha), grosso modo, a digitalização nos campos tecnológicos trouxe uma precisão, até então, inimaginável se nós voltarmos lá para época das válvulas. Novas tecnologias de comunicação como a Internet e Vídeo-conferência são exemplos já bem conhecidos. Entretanto, o supra-sumo do momento é a Televisão de Alta Definição, HDTV, ou, simplesmente, Tevê Digital.
Uma das grandes diferenças para o sistema televisivo analógico está nas inúmeras possibilidades técnicas de organização e difusão da programação. Ganha muitíssimo em qualidade de imagem e som. Um conversor – ainda sem preço definido – deverá ser instalado nos televisores para habilitá-los a receberem o sinal digital, que chega sem maiores percalços onde houver um televisor ligado. Sem contar que o sistema é mais flexível e compatível com vários meios de transmissão, como o satélite e o cabo. Especialistas prevêem num futuro próximo uma conjunção de mídias convivendo na telinha, inclusive, a Internet.
Estaríamos presenciando o triunfo das indústrias culturais? Hokheimer e Marcuse consideram a cultura dos meios de comunicação de massa como uma cultura puramente industrializada. A Aldeia Global de Mc Luhan mostra de vez as suas armas. Vale dizer que ela não trouxe consigo aqueles pressupostos alegóricos do visionário que afirmava que os mass media reduziriam a zero as ameaças de conflitos bélicos, acabariam com a divisão entre militares e civis e fariam progredir a passos largos, todos os territórios não-industrializados. Tudo em nome de uma cultura homogeneizada. Graças ao poder que a televisão possui de mobilizar o sentido das audiências.
Mas por que tanta obsessão em melhorar e ampliar cada vez mais a qualidade e a capacidade da transmissão? Ora, na Era da informação, sociedade e economia, é preciso que se promova e que se deixe circular livremente o fluxo de informações, de pessoas e de bens em nível global. Isso fica evidente quando fenômenos a exemplo a Internet surgem como ambientes virtuais para todos os tipos de relações, principalmente, as comerciais. Nesse sentido, não há nada no planeta que possa servir mais de vitrine para anunciar produtos, estimular a cultura comercial e perpetuar a sociedade de consumo do que a televisão. E se não podemos fazer muito diante dos efeitos globalizantes provocados pela internacionalização da comunicação e o conjunto de diferentes transformações na ordem econômica, política, social, tecnológica, cultural, religiosa e educativa que vem ocorrendo nos últimos anos; ao menos abramos espaço para que novas discussões possam trazer à tona, constantemente – nos mais variados espaços além do acadêmico – críticas construtivas sobre a complexa relação entre os meios de comunicação de massa regidos pela lógica do capital; informação e cultura como bens de consumo; e seus desdobramentos sociais e antropológicos. Não nos deixemos alienar ainda mais. Pois agora, as elites que detêm o comando da mídia apresentam a Tevê digital. Um incrível veículo movido por uma Ideologia de Alta Definição.
PUBLICADO EM DEZEMBRO DE 2007 NO JORNAL DE IDÉIAS (RECIFE/PE)
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