terça-feira, 15 de setembro de 2009

Severino! Corta!

"Diretor... Isto é uma bichona!" Esse é o bordão de Severino, personagem do Programa Zorra Total, da TV Globo. Na telinha até que fica engraçado, mas, não isenta o quadro humorístico de ser um endosso ao preconceito sexual. Pois o enredo do quadro se limita a acusar de bicha quem quer que entre em cena. E lá está, aos sábados, o ator Paulo Silvino cumprindo o seu papel de operário da dramaturgia e de colaborador na perpetuação da cultura antigay. Por isso se torna nocivo. Porque, de alguma maneira termina, senão por arranhar, ao menos desmoralizar os pilares que regem os direitos dos cidadãos que vivem numa democracia. Na verdade opção sexual é um direito humano. Condenado, sim, pelos preconceituosos de carteirinha e pelos desígnios da cartilha eclesiástica. Está escrito! Faz parte dos sei lá quantos mandamentos da Igreja Católica. Li, numa cartilha de preparação para o sacramento da crisma que, ter opção pelo mesmo sexo é um dos pecados que bradam ao céu. É atentar contra a natureza sexual. Coloca o gay junto ao homicida voluntário, aos que oprimem os pobres, órfãos e viúvas e aos que negam o justo salário aos que trabalham. Penso que é no mínimo um exagero, pra não dizer um absurdo. Entretanto, a Igreja ignora a Carta dos Direitos Humanos. Está visceralmente ligada a critérios medievais e convenientes a si. E parece se orgulhar disso, quando se vê que ela adota no discurso tamanha aversão. Fico imaginando qual seria o motivo para tanta repulsa. O que será que tanto incomoda os dirigentes da maior religião existente? Só porque os gays disputam o mercado de trabalho com os heterossexuais? Ou seriam o desejo e a coragem escancarada que esses últimos têm de gritar aos quatro cantos do planeta: somos gays!? O que há de tão errado nisso? Não seria mais errado usar o nome de Jesus para discriminar qualquer grupo que seja? Existe algum mal em soltar a franga em passeata? Embora não seja a minha opção, não vejo problema algum em a comunidade gay se expressar. Isso não fere a moral a meu ver. Existem, sim, outras coisas que, de fato, ferem todos os princípios éticos e morais. A começar pela farra promovida com o dinheiro público, a qual são responsáveis os que são eleitos para gerir o país – a maioria escroques. O que o despótico, Hugo Chávez está fazendo ao acabar com a liberdade de expressão e de imprensa na Venezuela é mais imoral ainda. Por essas e outras o Vaticano deveria rever os conceitos de sexualidade. Ou melhor, quem sabe, deixar o tema sexo pra quem faz sexo. Já que eles são tão castos, presume-se. Mas, e os escândalos sobre homossexualidade, inclusive envolvendo pedofilia a que padres mundo afora são acusados e respondem a processos? Então, se os gays atentam contra a natureza, o que estariam fazendo esses sacerdotes? Portanto, sugiro que se reflita e se discuta com atenção e respeito assuntos como preconceito, intolerância, racismo, xenofobia e tantos outros que fazem do homem – como diz Nietsche em a Genealogia da Moral – uma besta. Talvez se consiga reduzir uma série de injustiças não só contra os gays. Lembremos do que se viu na Rússia, há poucos dias através da imprensa internacional. Grupos de neonazistas e de ortodoxos católicos agrediram (física e verbalmente) manifestantes gays que reivindicavam o direito de expressar publicamente a opção. E ainda foram presos pela polícia, que nada fez contra os agressores. Ou seja, não é uma questão de fazer apologia à comunidade gay, é simplesmente uma questão de se respeitar, primeiro as escolhas alheias e, num segundo momento, as Leis que deveriam assegurar esse direito entre outros. Sem contar que – como defendem teóricos como Harvey e Lyotard –, vivemos na pós-modernidade. Na qual todos os estereótipos e suas multiplicidades de linguagem devem ser aceitos como manifestação de um imenso puzzle cultural. Uma verdadeira coabitação de culturas, a qual pressupõe Wolton. E vale ressaltar que, de preferência, usando sempre a camisinha. Mesmo que Bento XVI diga que é coisa do diabo.

PUBLICADO EM 2007 NO JORNAL IDÉIAS

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