terça-feira, 15 de setembro de 2009

Ministério da libido

Brasileiro é mesmo um sujeito sensual. Desde a época de “Pedrinho”, o imperador que deixara os (poucos) cabelos de D. João VI em pé, a coisa por aqui já era resolvida, muitas vezes, lá dentro da senzala. No aconchego das entrecoxas rijas de alguma escrava. Não existe pecado do lado de baixo do Equador, já dizia uma música interpretada na voz de Ney Matogrosso. Outro representante da sexualidade à flor da pele. Ora, temos sangue latino.
Adoramos um bumbum desnudo na praia, mesmo que a igreja insista em dizer que tudo é pecado. Então, quando vi a ministra do turismo, Marta Suplicy, dizer na televisão que o que se podia fazer em relação ao caos nos aeroportos, seria relaxar e gozar: tive a certeza de que somos de fato sexuais. Embora as notícias veiculadas na imprensa mostrem a nossa (quase) total impotência diante dos acontecimentos, a gente sempre dá um jeitinho. Não desistimos nunca, lembra? No entanto, tentar relaxar e chegar ao orgasmo sem ter o menor estímulo é, no mínimo covardia. Como poderemos gozar enquanto o dinheiro público vai sendo utilizado de maneira privada? Como conseguiremos, sequer, um gemido de prazer, ao assistirmos todos os dias na tevê a uma enxurrada de canalhas sendo desmascarados, presos e logo após soltos para gozarem da nossa cara? Como sentiremos aquele arrepiozinho de um cheiro no cangote, se apenas se consegue sentir cheiro de lama – que não sei quem passou a usar o eufemismo de pizza? Como tirar aquele sarrinho tão salutar ao aquecimento das preliminares, se os sujeitos que deveriam cuidar do país só tiram sarro de nós? Enchendo as contas bancárias no exterior enquanto nós tentamos nos livrar das garras do leão – que também é um grande gozador chegando a dar dezenas de ejaculações num único ato. É verdade!
Não posso deixar de mencionar as estradas brasileiras, que são importantíssimas para o escoamento da produção e, é claro, para o turismo rodoviário. Dá pra gozar com tanto buraco na pista? Nem adianta tentar parar porque não existe acostamento... Ufa! São tantas as mazelas que talvez seja melhor recorrer ao velho Kama Sutra para amenizar a falta de tesão. Não queremos brochar, não é? Por isso fiquei intrigado com a ministra psicóloga. E mais curioso ainda para saber de onde ela busca tanta libido. Certamente, pelo o que ela declarou: em tudo. Até num congestionado e caótico saguão de aeroporto.
Nas “páginas” do over book. Em atraso de aeronave. Cancelamento de compromissos. Desrespeito com o consumidor – ou seria cidadão? Enfim, como estou embarcando (espero conseguir) para Porto Alegre no dia 1º de julho me vi na obrigação de descobrir qual a melhor posição para chegar lá. Não na capital gaúcha, porque estou cético quanto ao embarque. E sim ao tal orgasmo que Marta Suplicy sugere com autoridade de sexóloga que é. Que além de gostoso, ainda nos faria esquecer das bizarrices sociais. Mas, se o tiro sair pela culatra, se nem um orgasmo precoce atingirmos, espero que sobre ao menos um beijo e não um burocrático pedido de desculpas por gozar de nós.


PUBLICADO EM JULHO DE 2007 NO JORNAL DE IDÉIAS (RECIFE/PE)

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