terça-feira, 15 de setembro de 2009

O preço das muletas

Desde o princípio da humanidade, as drogas – leia-se substâncias alucinógenas ou que causam alguma alteração no organismo –, já existiam na biodiversidade. Cada uma delas usada em épocas, lugares e situações diferentes. O homem primitivo, por exemplo, usava plantas com efeitos medicinais para curar enfermidades. Índios mascam a folha da coca como estimulante para grandes caminhadas e caçadas (que o diga Evo Morales). Nas guerras, amputações foram feitas usando-se éter como anestésico. Curandeiros fumam ervas, marroquinos e turcos tragam narguilés como culto religioso. Os franciscanos já tomavam tragos homéricos. Médicos americanos, mesmo causando polêmica, já prescrevem maconha para pacientes soropositivos e com câncer, para estimular o apetite e diminuir a ansiedade. Argumentam os especialistas.
Pode ser, às vezes, difícil justificar, mas o uso de alguma espécie de droga sempre fez parte da vida do homem. E nem mencionei a mega-indústria farmacêutica. Com o seu arsenal químico que vai de analgésicos e antiinflamatórios a ansiolíticos e antidepressivos. Faixa preta na embalagem, nome sugestivo, de fácil memorização. São os “doril” e “dormonide” da vida. Receita à mão, farmácia ao alcance, problema resolvido. Tudo lícito. Como é também na indústria de bebidas alcoólicas: Propaganda na tevê, mulheres seminuas, playboys em carrões, gente sarada na praia... A vida é perfeita em todos os slogans. Aprecie com moderação. Não há nenhuma moderação nos índices de acidentes de trânsito e crimes provocados por embriaguez.
Vejamos o exemplo do cigarro: por mais que o usuário saiba dos males provocados pelas mais de 4 mil substâncias químicas contidas nele, e que campanhas contra o tabagismo sejam divulgadas na mídia, milhares, quem sabe milhões de pessoas só no Brasil, fumam um maço todos os dias. Penso que não é só a curiosidade – como muitos defendem – ou a força das substâncias tóxicas que fazem o sujeito experimentar e depois se viciar. E sim outros, grandes motivos pelos quais tantas pessoas consomem inúmeras drogas. Talvez a “espetacularização do vazio” (Jean Baudrillard). Ou o vazio de suas próprias vidas. A coisificação do homem, de sua própria existência. Um niilismo inconsciente. O individualismo exacerbado. A falta de um propósito de continuidade. A inebriante efemeridade das coisas... De fato, o que se nota é a “necessidade” de um grande par de muletas psicológicas. E em busca do “conforto” dado pelas tais muletas é que tantas pessoas, entre outras coisas, burlam receituários para conseguir calmantes e estimulantes, etc. O “prazer” da vida sentido num êxtase... Além de se arriscarem em pontos de vendas de drogas. Assim como as pessoas metralhadas no ano passado na favela João de Barros e que foram notícia de jornal.
É preciso que entendamos o evento a partir de observações antropológicas, históricas, sociais e psicológicas. Afinal, são adultos e idosos – inclusive crianças – consumindo drogas de diferentes tipos lícitos e ilícitos. E ao buscarem o alento em suas muletas, nem se dão conta que estão fomentando a prática do tráfico de entorpecentes e toda uma rede criminosa que envolve traficantes, policiais, políticos, personalidades e a sociedade de um modo geral, como os jovens de classe média, presos na semana passada vendendo drogas numa festa rave em Candeias. Pensa-se que a vida é uma droga: usar tais muletas pode sair bem mais caro do que se imagina. O vigilante e a advogada, então namorada dele, e que segundo as primeiras investigações policiais, na ocasião tentavam comprar maconha na favela João de Barros, não para traficar e sim consumir, bem como os jovens recolhidos ao Cotel, pagaram um preço altíssimo.

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