terça-feira, 15 de setembro de 2009

Estética do crime

Já faz algum tempo que Arnaldo Jabor – não que eu morra de amores por ele, muito pelo contrário – numa crônica, disse que o Brasil estava tomando banho. Ele se referia ao trabalho da Polícia Federal no combate à corrupção, que naquela época já vinha tirando o sono de muita gente e tornando público a sujeira onde quer que ela estivesse. Não é a toa que o crime de colarinho branco tem pautado a imprensa com o tal banho que parece nunca terminar. Ao inundar as telas dos noticiários, os corruptos seriam desmascarados e presos. É duro dizer: mas ele tinha razão. Mesmo que a reclusão dos escroques seja branda como um castigo de criança. E nesse caso, assim, não dá pra fazer ninguém se arrepender. Com esse método o sujeito prefere fingir que não sabe o que é politicamente correto. Em casa – pelo menos na maioria delas, creio –, na Igreja e, certamente na escola, a criança aprende desde cedo que “pegar o que é dos outros sem pedir é muito feio... E se pegar tem que devolver...”. É uma pena que muitas dessas, até então, inocentes crianças crescem e por pura conveniência “esquecem” a tão repetida lição. Nem mesmo o respeitadíssimo Batman, super-herói do cinema holywoodiano, com a sua pedagogia de “o crime não compensa”, sedimentou princípios e valores éticos nos já crescidos (perniciosos) arrivistas de plantão. O que terá acontecido? Onde terão falhado os pais, a escola, a Igreja e homem-morcego? Talvez a ascensão da violência urbana e da conseqüente onda de crimes como assalto, furto de veículos, agressões domésticas entre outros, e os intitulados hediondos como seqüestro, latrocínio, estupro, tráfico de pessoas, prostituição de menores etc., tenha mudado a percepção estética do crime. Pode me acusar de pleonasmo, mas, o hediondo assumiu a aura de inestético. O crime hediondo é depravado, imundo, nojento. Entretanto, uma coisa não exclui a outra. É claro que no mundo infantil, bem como no do adulto, continua sendo errado (feio) passar a mão no que é alheio. Contudo, os crimes hediondos são mais do que isso: são pecados. Ferem os preceitos da Igreja – de todas elas. E, embora a corrupção também seja condenada pelos eclesiásticos e o crime divulgado na mídia juntamente com os hediondos, esse já não seja tão mal-afeiçoado. Por isso fico pensando que a feiúra está diretamente associada com a extirpe do criminoso. Comparemos. O criminoso engravatado na maioria das vezes é branco, rico, veste Armani e usa Ralph Lauren. A maioria dos bandidos que cometem o hediondo são pardos, pobres e não consomem as mesmas coisas dos outros correligionários requintados. É só olhar para as características simbólicas de cada crime. O hediondo, normalmente, suscita pânico, terror, derrame de sangue, cativeiros fétidos, atrocidades. Já o de colarinho branco expõe mansões cinematográficas, carros importados de luxo, contas no exterior, aviões a jato, maletas em couro cheias de dinheiro, e o pior: os discursos de defesa dos advogados e o cinismo dos acusados. E o danado é que não dá nada. A impunidade é a certeza maior. Ainda que milhões de pessoas sejam prejudicadas por causa dos desvios de recursos que serviriam para melhorar os serviços públicos em todas as áreas sociais. Tanto para o mais pobre quanto para o mais rico. Independentemente de preconceitos estéticos.



PUBLICADO EM JUNHO DE 2007 NO JORNAL DE IDÉIAS (RECIFE/PE)

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esse artigo ficou ARRETADO! Um dos seus melhores entre os que já li. O artigo "Ministério da libido" também é fantástico! Já li ambos há tempo, no Jornal de Idéias. Vc faz jus ao nome Silveira, puxou a painho, escreves muito! Porra!

    Que bom, mais um blog para interagir conosco! Pelo que vi, nele há vários artigos que ainda não li.

    Passei basicamente pra deixar meu registro no seu blog e dizer que estarei sempre por aqui lendo seus artigos.

    Quando vc ler minhas postagens no meu blog, o espaço pra comentários está aberto para sugestões e críticas, e estas são muito bem-vindas; isso quer dizer que, se tiver uma "MEFA", pode esculhambar e me ensinar a escrever. Até porque não tem coisa melhor do que receber dicas/sugestões e aprimorar a escrita com a ajuda um grande Jornalista!

    Nando, meu querido, parabéns pelo trabalho, vc é um grande profissional, além de um grande irmão, um forte abraço!

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